O Professor Ideal


Quem era o professor ideal para Confúcio? Chamado de “pai dos mestres” e “santo dos professores” na China (embora nisso não vá nenhuma conotação religiosa), Confúcio candidatou-se seriamente ao posto de um dos pedagogos mais importantes da humanidade. Suas orientações sobre a necessidade de estudar e de como ensinar amalgamaram-se ao pensamento chinês, e hoje são indissociáveis da forma corrente desta sociedade pensar e agir. Vale ainda notar que este é o sistema pedagógico cuja influência é a mais antiga e que continua a existir, servindo a educação da maior população do planeta.

Há que considerarmos, pois, que alguma valia este sistema tem, seja indicando os pontos de atrito clássicos nos pensamentos pedagógicos, seja porque nele deve haver algo dessa – tão banalizada – sabedoria que percorre a durabilidade de sua doutrina.

Por conta disso, me interessei em particular por discutir as orientações de Confúcio sobre como se deve ensinar, presentes no capítulo 18 do Manual dos Rituais (Liji). Creio que elas são interessantes por uma renovada atualidade que se pode encontrar no texto, por advirem de outra civilização que obteve sucesso em sua continuidade mas, principalmente, porque me preocupa demasiado algumas noções errôneas que perseguem a educação de hoje. Foi Michael Apple que identificou, muito bem, que as políticas educacionais atuais enfrentam uma série de problemas novos, provenientes do esvaziamento ideológico causado pelo fim da Guerra-Fria; entre eles, encontra-se um populismo inconseqüente, uma retomada da religiosidade proselitista e intolerante, o radicalismo reacionário, etc.

Esta breve introdução deve ser concluída, porém, com o interesse pessoal de analisar o caso. Tendo alguma experiência com Ensino Médio e Superior, me ponho a colocar em questão de as atuais práticas educacionais não estão seguindo um caminho obscuro derivado de um desejo inconseqüente de “facilitar as coisas para todos”. Isto é bem específico no caso do Brasil, cuja política para as escolas tem incorporado elementos que desestimulam qualquer tipo de progressão no aprendizado: aprovação automática, visão assistencialista da rede de ensino (o colégio deve oferecer “merenda” e “entretenimento” para os alunos, por exemplo), um foco eminentemente formativo (as escolas têm ganhado computadores, por exemplo, mas não laboratórios), facilidades para o acesso ao Ensino Superior (com variadas formas de inclusão e bolsas, vulgarizando, de forma inadequada, o papel das instituições superiores) o que leva, no conjunto, a encobrir os erros e a perpetuar os problemas de formação dos alunos.

Neste ponto, recorrer a Confúcio pode ser uma atitude taxada de “conservadora”, ou “antiquada”. Sinceramente, eu gostaria que algum desses críticos me mostrasse qual teórico ocidental tem apresentado resultado melhor em nosso país. O caso da China talvez fosse um bom exemplo, que mostra inclusive que a ação do Estado pode influenciar, mas não decidir, o interesse de uma sociedade pela educação. As culpas pelas nossas falhas podem ser distribuídas, como tradicionalmente fazemos, por entre várias fontes; mas a massa de educadores no Brasil prefere mesmo a atitude hipócrita de não buscar se melhorar, de não querer enfrentar as necessidades duras do agir educativo e principalmente, preferem assumir a idéia de que “o mercado elimina os piores e quem se interessa corre atrás” (ainda que o discurso seja sempre o de estimular os alunos...), o que é a atitude mais fácil para jogar a sociedade no caos e a história na latrina – mas que não ajuda em nada a modificar as pessoas.

Nesta sucinta análise que farei, apresentarei então uma parte do texto de Confúcio sobre a questão de como se deve ensinar. Seguirei o modelo tradicional chinês, em que insiro meus comentários no final de cada trecho, buscando fazer uma conexão com esta introdução.


SOBRE A EDUCAÇÃO (Cap. 18 do Liji - a tradução é de Lin Yutang) – Como deve ser o Professor Ideal

Os fatores da educação colegial são:

1) Prevenção, ou seja, prevenir os maus hábitos antes que surjam;
2) Oportunidade, ou seja, apresentar ao estudante somente as coisas para as quais ele esteja preparado;
3) Ordem, ou seja, ministrar as diversas matérias em sucessão adequada;
4) Comparação, ou seja, fazer com que os estudantes admirem as qualidades dos demais. Esses quatro fatores asseguram o êxito da educação.
Por outro lado, coibir os maus hábitos uma vez arraigados pareceria algo adverso às inclinações de cada um e tentar corrigi-los já não daria resultado. Instruir os alunos depois de ultrapassada a idade escolar tornaria o aprendizado difícil e fútil. Deixar de ministrar os ensinamentos na devida ordem poria os alunos em confusão quanto à matéria ensinada e tampouco os resultados seriam bons. Estudar a sós qualquer assunto, sem colegas com quem trocar idéias, acarretaria a estreiteza mental do aluno à falta de conhecimento geral. As más companhias induziriam o estudante a colocar-se contra os professores, e os maus antecedentes levá-lo-iam a negligenciar os estudos. Esses fatores, seis ao todo, são os que podem arruinar a educação colegial.

Comentário: Todos os elementos para um currículo moderno, organizado e com os conteúdos em ordem já estão presentes aqui. Disso decorre que qualquer proposta educativa deve ter uma estrutura, um sentido e um fim. Até aqui já conquistamos o mesmo para a educação ocidental, e neste sentido Confúcio não nos parece absolutamente original, exceto por uma razão: deve se respeitar, inequivocamente, o ritmo dos alunos. Isso significa garantir a idade de aprendizado de uma turma, evitando a promiscuidade das escolas que misturam crianças e jovens com diferenças brutais de idade, que não raro redundam em conflito; significa também que devemos estimular todos a acompanhar o ritmo, mas não é possível fazê-lo se aquele que seria o interessado não o faz. Disse o próprio Confúcio no Lunyu: “Não adianta tentar ensinar para quem não quer aprender”. Todos sabem os efeitos que a manutenção de alunos com problemas sérios de comportamento provocam nas escolas e nas turmas: reinados de terror, de ameaças e de tensão, sufocados pelo silêncio cotidiano do medo e da repressão, e cuja cumplicidade alienada dos serviços de coordenação e supervisão garante de forma indisfarçável a sua continuidade. Estes alunos devem ser entrevistados, estimulados e provocados de maneira salutar: mas a sua não adequação exige, igualmente, a sua reprovação. Afinal, as decepções também fazem parte do ato de educar. Se isso parece um tanto cruel, pensemos em todas as crianças que foram agredidas e sofreram atos indescritíveis de violência física e psicológica por conta da licenciosidade de diretores e professores que foram convenientes com a política pública de “inclusão”. A inclusão completa deve ser feita com um respeito às normas que abrangem a todos, e não com o tal “respeito a diversidade” que só dá garantias aos que não respeitam os direitos dos outros.

Conhecendo os fatores de êxito e os do fracasso da educação, o homem superior está, pois, qualificado para ser professor. Ao ensinar, o homem superior orienta seus discípulos sem arrastá-los; convida-os a avançar mas não os coage; abre-lhes os caminhos mas não os força a caminhar. Orientando sem arrastar, torna o aprendizado agradável; convidando sem coagir, torna o aprendizado fácil; abrindo o caminho sem forçar à caminhada, faz com que os alunos pensem por si mesmos. Ora, um homem que torna agradável e fácil o aprendizado e faz com que os estudantes pensem por si mesmos será o que se pode chamar um bom professor.

Comentário: Aqui Confúcio deixa bem claro que a educação não é um sistema repressor ou coercivo, mas que deve ser feita respeitando, justamente, o ritmo dos alunos. A maturidade dos alunos deve ser levada em conta, e a adequação do expediente didático é um fator fundamental. O apontamento de Confúcio é interessante, posto que os educadores confundem, comumente, a método empregado com a manutenção da disciplina. Estimular os alunos a pensar significa ajudá-los a se expressar consciente e criticamente, mas isso não exige que seja feito aos berros ou de forma grosseira. A verdadeira liberdade pode ser conquistada com respeito e espaço. Dois efeitos são comuns aqui: ou os professores apenas disciplinam e condicionam, mas não estimulam os alunos a ter voz própria, ou os deixam livres por inteiro, mas eles não aprendem nada do conteúdo. Os resultados são claros: pessoas mudas em sala de aula, na faculdade e na vida ou, pessoas sempre dispostas a contestar, mas absolutamente sem base ou razão. Por isso Confúcio disse: “pensar sem estudar é inútil; estudar sem pensar é perigoso”.

Há na educação quatro inconvenientes muito comuns, contra os quais deve precaver-se o professor. Certos estudantes procuram aprender demais ou demasiados assuntos, outros aprendem pouco ou poucos assuntos, alguns aprendem com demasiada facilidade, outros facilmente perdem o ânimo. Essas coisas demonstram que os indivíduos diferem quanto aos dotes mentais, e só mediante o conhecimento desses dotes o professor poderá corrigir as respectivas falhas: o professor não é senão um homem que faz por incrementar o que há de bom e remediar o que há de mal em seus pupilos.

Comentário: Isso significa que todos têm o potencial para serem alunos, mas tal potencial não é igual. Por conseguinte, uma escola ideal não pode condicionar os alunos a responderem as necessidades “de mercado” ou “do mundo moderno”. Aqui entra a liberdade verdadeira: os alunos devem ser estimulados a despertarem e seguirem suas inclinações naturais (todo o aluno tem uma matéria preferida), e o tempo vago após o horário dos estudos obrigatórios deveria ser preenchido por atividades relacionadas a esta vocação individual. O espaço da escola deveria ser, justamente, o lugar da realização pessoal e futura. Se tal fosse, as religiões seriam opções, e não respostas para as angústias individuais.

Um bom cantor leva os circunstantes a seguirem- lhe o canto, um bom educador leva os circunstantes a seguirem-lhe o ideal: sua palavra é concisa mas expressiva, ocasional mas rica de sentido, e ele tem ainda a habilidade de esboçar engenhosos exemplos que o façam melhor compreendido pelos demais. Assim, pode-se dizer um bom homem aquele que faz com que outros lhe sigam o ideal.

Comentário: Um professor ideal deve ser simpático, mas não conivente; acessível, mas não permissivo; humano, mas também profissional. Seu método de ensino deve contar carisma, envolvimento com a questão educativa. Sua linguagem deve ser rica de exemplos e analogias para trazer ao aluno o conhecimento; e ao trazê-lo, o aluno acompanha o professor e segue naturalmente o caminho.

O homem superior sabe o que é difícil e o que é fácil, o que é excelente e o que é deplorável, entre as coisas que se devem aprender - e por isso é hábil em fornecer exemplos. Sendo hábil no exemplificar, sabe portanto ensinar. Sabendo ensinar, saberá ser pai. Sabendo ser pai, saberá governar os homens. Desse modo, o magistério é a arte de aprender a governar os homens. Eis por que nunca é excessivo o cuidado com que se escolhem os professores. Tal é o sentido daquele trecho dos Documentos Antigos que diz: "Os Três Reis e as Três Dinastias (Xia, Shang e Zhou) davam a maior importância à escolha dos professores."

Comentário: Educar, para Confúcio, é o pilar de toda a sociedade. São poucas as pessoas neste mundo que não tenham passado por um professor, e os que não tiveram esta oportunidade a deploram. Até mesmo as crianças sabem quando estão numa boa escola, e quando admoestadas, aprendem a olhar para si mesmas e vislumbrar o que podem perder. A Educação é a base da família, do governo, das relações sociais, da inserção do indivíduo como ser humano na sociedade. Por conta disso, exigir levianamente que um professor “facilite as coisas” é um dos maiores crimes que podem ser cometidos contra o aluno e a sua formação. Somente os educadores “assistencialistas” cometem este tipo de erro, acreditando poder compensar as falhas de conhecimento de alguém com algum outro tipo de dividendo. Infelizmente isso não parece ser real. Quando alguém não sabe algo, simplesmente não o sabe – e querer compensar isso significa, exatamente, recompensar o erro! Assim, as pessoas que erram aprendem que podem continuar errando sem problemas, e os que se esforçam tem um péssimo exemplo diante de si. Por isso mesmo, na história da China antiga, os mestres eram escolhidos cuidadosamente pelos governantes; afinal, a base da continuidade dependia disso.

Ainda na questão da educação, o mais difícil é criar o respeito ao professor. Quando se respeita o professor respeitam-se os seus ensinamentos, e quando se lhe respeitam os ensinamentos respeitam-se a instrução e cultura. Por isso há duas espécies de cidadãos que o rei não ousa considerar como vassalos: o professor e o shi (criança que representa o espírito dos mortos nos sacrifícios). Segundo as praxes colegiais, um professor não precisa pôr-se de pé com a face voltada para o norte mesmo ao receber um édito do rei - o que é prova de grande respeito real ao professor.

Comentário: É mais do que necessário, portanto, que o professor seja valorizado socialmente e no âmbito escolar. Enquanto as políticas educacionais favoreceram a intromissão daqueles que não entendem nada de educar na Educação, o que mais poderá advir disso? Um exemplo grave disso são as instituições de ensino que “se adaptam as necessidades de mercado”, favorecendo a distribuição de diplomas e minorando o papel do educador. Há que se perguntar se, na prática, alguém se operaria com um médico que foi aprovado com a média 5.0 na faculdade (ou seja, ele só sabe metade do que tem que fazer!). E, no entanto, as pessoas preferem em geral trilhar o caminho mais fácil, apenas para alcançar uma meta profissional e individual. Isso é enganar-se a si mesmo, e enganar os outros. Confúcio, estando uma vez a passear no campo, viu um de seus (ex)discípulos dormindo debaixo de uma árvore ao invés de trabalhar e estudar. Seu comentário foi contundente, mas real: “Viram? Não se pode talhar madeira podre, nem fazer paredes com esterco, da mesma maneira como não se pode ensinar quem não quer aprender. Antes, eu ouvia o que as pessoas me diziam; agora, eu vejo o que elas fazem”.

Com um bom aluno o professor não terá muito que fazer e colherá em dobro os resultados, além de granjear o respeito do estudante. Com um mal aluno o professor tem de fazer esforço e colhe em resultado apenas a metade do que seria de esperar, além de ficar antipatizado pelo estudante. Um bom argüidor faz como o rachador de lenha - começa pela parte mais fácil, deixando os nós para depois, e ao fim de algum tempo aluno e professor chegam à compreensão da matéria até com certa sensação de prazer; o mau argüidor faz exatamente o contrário. O bom respondedor de perguntas é como um conjunto de guizos - quando se tange o maior, o menor vibra, e quando se tange o menor, o maior vibra, sendo apenas preciso dar tempo a que esmaeçam os respectivos sons; o mau respondedor é exatamente o contrário disto. Eis algumas sugestões quanto aos processos de ensinar e aprender.

Comentário: Assim sendo, é impossível não constatar que em muitos casos, o processo educativo naturalmente irá selecionar aqueles que estão preparados, os que não estão interessados e os que realmente precisam de ajuda e se esforçam. Como um professor deve conduzir, e não forçar, ele só pode ajudar de fato aqueles que querem ser ajudados. Mas isso não deve ser encarado de forma nociva, ao contrário: é a possibilidade que as pessoas têm de constatar se estão fazendo realmente o que querem ou não. Existem dois perigos aqui, porém; muitos alunos não possuem maturidade para perceberem esta condição e devem ser esclarecidos sobre tal; o outro perigo vem das pessoas que continuam a insistir em algo (numa carreira, curso universitário ou perspectiva futura) por razões outras que não sejam o aprendizado ou numa realização interior baseada na sabedoria. Estas pessoas lotam os cursos de graduação do momento, e estão fadadas ao fracasso se não mudarem suas perspectivas, posto que serão eliminadas da escola ou aprovadas por um vendedor de ensino. Mas há a chance de mudar para aqueles que se conscientizam disso.

O tipo de cultura que recorre à memorização de coisas, com o fim de dar resposta a certas perguntas, não qualifica a ninguém para ser professor. Um bom professor há de observar as conversas dos alunos; quando percebe que um deles está fazendo o máximo e não encontra a solução, então vai a ele e o esclarece - e se após a explicação o estudante não compreende, então é sinal de que ainda não está à altura do assunto e deve deixá-lo de lado.

Comentário: O ensino baseado em decorar nomes, palavras, objetos, etc, é o pior possível, mas ainda é bastante comum em nossa realidade educativa. Afinal, quantos professores usualmente não costumam afirmar “isso na teoria é muito bom, mas na hora do vamos ver, a coisa muda”, entre outras pérolas? Isso ocorre em função de algo bastante simples: comodidade. É cômodo ao professor dar provas com espaços vazios para serem preenchidos, dar seminários em que os alunos só conhecerão um autor, dar aulas e fechar o espaço para o debate. É difícil convencer os alunos a ler algo, a brigar com eles para serem melhores, a pô-los para falar o que pensam ou aprenderam, e finalmente, fazê-los terem consciência da importância de ler, estudar e compreender. Obviamente, em um sistema de ensino como o brasileiro, em que os alunos são aprovados automaticamente ou tem que passar com médias mínimas, não há nenhum estímulo a essa busca de melhoria. Mas o estímulo real só pode existir de alguém realmente interessado em ensinar. E, se grande parte dos professores estivesse realmente sintonizada com este sentimento, uma medida absurda como esta nunca teria sido aprovada.

O filho de um pensador naturalmente aprenderá a coser roupas de peles, e o filho do exímio fabricante de armas naturalmente aprenderá a fazer um chi (espécie de cesto, feito de tiras de bambu trançadas, para guardar grãos), e o amansador de cavalos começará por amarrá-los atrás da carruagem: a partir dessas três noções o gentil-homem é capaz de aferir o melhor método educativo. Os doutores da Antigüidade valiam-se da analogia para o estudo da verdade nas coisas. O tambor não chega a produzir em si nenhuma das cinco notas musicais, e tampouco as cinco notas conseguem pôr-se em ritmo sem o tambor. A água não possui nenhuma das cinco cores, e todavia (na pintura) as cinco cores não poderiam brilhar sem a água. O conhecimento em si não se subordina a nenhum dos cinco sentidos, e no entanto os cinco sentidos nunca serão bem desenvolvidos se faltar o conhecimento. O professor não se filia às cinco categorias da hierarquia do clã; entretanto, estas não se uniriam pelo amor as cinco categorias hierárquicas do clã sem o professor.

Comentário: O professor, então, só pode fazer metade do caminho; a outra metade tem que ser feita pelo aluno. Educar não é comércio, em que se vendem coisas que depois se desgastarão e serão trocadas por novas; não é também uma pura e simples técnica, que será superada, pois todos precisam sempre aprender; por isso, a Educação é antes de tudo uma arte, pois o mestre só pode justamente ensinar a técnica e a mudança, sempre; mas cabe ao discípulo evoluir por conta própria, e isto não pode ser mudado. Um mestre que qualifica um aluno incapaz é um mentiroso; um discípulo que não estuda por conta própria gasta o tempo de seu professor, e engana a si mesmo. Mas sem um professor, nada pode continuar.

O gentil-homem diz: “Uma personalidade forte não se adapta (necessariamente) a determinada profissão. Um grande caráter não qualifica (necessariamente) alguém para determinado serviço. Uma firme honestidade não faz (necessariamente) com que o homem mantenha sua palavra. Uma alta noção de tempo não torna (necessariamente) pontual a pessoa". Saber estas quatro coisas é realmente saber as coisas fundamentais da vida. Ao fazerem suas oferendas aos deuses fluviais, os antigos reis sempre começavam o culto pelos deuses dos rios, antes de celebrarem aos deuses dos mares; foi estabelecida uma distinção entre a nascente e a foz, e saber essa distinção é saber o essencial.

Comentário: O fim do texto coloca, de forma completa, o que é educar. Ter sido educado não qualifica ninguém a ser professor. É necessário estudar para ensinar; mas principalmente, é indispensável gostar e querer ensinar. Os professores são a nascente, e os que seguem seu curso estão na Foz. Disso concluímos que muito poucos professores são, na verdade, professores DE FATO. Para ser um mestre, é fundamental a autocrítica, a busca constante pelo conhecimento, o desejo de ajudar o mundo a melhorar e principalmente, o de alcançar algum tipo de sabedoria. Dito isso, temo então uma referência para saber se estamos fazendo as coisas do modo ideal; afinal, os professores são os médicos da alma, e cada alma é o general de sua própria vontade. Disse Confúcio no Daxue (O Grande Estudo):

Desde o mais elevado homem em dignidade até o mais humilde de todos, todos tem o mesmo dever de corrigir-se e melhorar-se: o aperfeiçoamento de si mesmo é a base fundamental de todo o progresso e de todo o desenvolvimento moral.

Não há nada mais verdadeiro do que isso. Quem, pois, deseja ser de fato professor?